Sagrada mudança

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É ponto pacífico que, para ser o domicílio de uma pessoa só, a vastidão do Vaticano é um pouco vasta demais. Tanto isso é verdade que fontes confiáveis do clero afirmam que o mandatário supremo da Igreja católica teria confessado, a alguns cardeais mais próximos, que para ele uma kitnet estaria de bom tamanho.

Tudo indica que há estudos prontos para a implantação de mudanças substanciais nos domínios físicos da Santa Madre, transformando quilômetros infindáveis de corredores folheados a ouro em um reles predinho cheira-a-mofo.

No andar de cima do modesto aposento papal se acomodará a Guarda Suíça, ocupando um total de 16 apartamentos do tipo 2 + 1. Considerando que cada quarto comporta com relativo conforto uns três ou quatro treliches, a coisa estaria resolvida. Os guardas lavariam suas fardas roxas e amarelas no Colarmaq da lavanderia, devidamente equipada com um varalzinho de parede.

Assessores diretos, conselheiros, guarda-costas, porta-vozes e outros profissionais indispensáveis ao exercício da função passariam a se alojar nos demais andares.

A ideia, controversa, não encontra unanimidade no alto escalão católico. Os mais críticos dizem que esse empobrecimento planejado seria uma alternativa franciscana demais, depondo contra a solidez institucional do catolicismo e colocando em posição vexatória o pastor do maior rebanho cristão do mundo. Uma figura que ao mesmo tempo é chefe de Estado – já que o Vaticano é um país.

Os 44 hectares, ou quase 2 alqueires, dos domínios onde repousa São Pedro se reduziriam à praticidade de um prédio de tamanho médio. Museus, arquivos secretos e não secretos, tumbas, catacumbas, banco, rádio e tv, agência de correios, Capela Sistina e tudo mais que compõe o divino complexo passariam à iniciativa privada, que se responsabilizaria pela manutenção impecável da ex-nação e seus tesouros.

“Para que tanta ostentação?”, questionou o atual Pontífice em recente entrevista à RAI. “Temos que dar exemplo de austeridade, pobreza e humildade. O Senhor espera de nós muitos sacrifícios, para que possamos compensar os desmandos cometidos pela inquisição, a desavergonhada venda de indulgências e, mais recentemente, os sucessivos escândalos financeiros e sexuais”.

Indagado sobre o extenso séquito de empregados a seu serviço, o Papa responde: “Uma faxineira a cada dez ou quinze dias liquidaria a fatura. Pessoalmente, não preciso mais do que isso e do meu suprimento mensal de mocotó”. Para não onerar excessivamente o condomínio, o sobe-e-desce de elevadores seria evitado com um simples banqunho ou pufe ao lado da guarita, onde o Pontícife despacharia todas as manhãs. Ou seja, audiências, coletivas de imprensa, pronunciamentos, missas e até mesmo concílios de cardeais teriam lugar no térreo.

Sendo o Brasil o maior país católico do mundo, nada justificaria a permanência do Vaticano na Itália. A constatação levanta a tese, não confirmada oficialmente mas muito plausível, de que o país de Jair Bolsonaro será escolhido para abrigar a nova sede da Santa Sé.
Esta é uma obra de ficção, não expressando crítica de natureza religiosa.
© Direitos Reservados

Marcelo Pirajá Sguassábia

Colunista
Redator publicitário
(19) 98184-5723

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