Hoje, às 1h40 sem falta

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Todos os dias, precisamente à 1h40 da madrugada, todos os retratos em preto e branco do mundo ganham cor e vida própria. Desde que não haja, claro, nenhum humano vivo presenciando o fenômeno.

É uma concessão dada aos mortos retratados, uma espécie de alforria temporária da prisão da moldura e da fria imobilidade do papel fotográfico.

Aos poucos, vão abandonando paredes, álbuns de recordações, mesas, consoles, criados-mudos e prateleiras onde dormem, esquecidos ou bem cuidados, com o pó espanado diariamente.

Não ocorrendo nada que force os encarnados de determinada casa a permanecerem alertas durante a madrugada, a brincadeira dura em torno de três horas. Em geral sorridentes e dispostos, antes de saírem mundo afora eles se alongam e bocejam, ajeitam seus óculos, apertam os nós de suas gravatas, retocam sua maquiagem e penteiam seus cabelos.

Então saem como os pequeninos da “Terra de Gigantes”. Sendo foto de família, se confraternizam e se abraçam antes de partirem para o passeio costumeiro pela casa. Quando casais, muitas vezes se beijam e transam loucamente por ali mesmo, escorados na moldura do porta-retrato. Há os que, no tour doméstico, observam a si próprios com a carne de agora – pois grande parte dos retratados continuam vivos, embora mais velhos. Entram nos quartos onde, devido ao adiantado da hora, normalmente dormem. Seguem nas pontas dos pés até se enfiarem nas cobertas que envolvem as versões gigantescas de seus corpos.

Nessas três preciosas horas, nada pode dar errado. Nenhum pequeno incidente deve resultar na desgraça de serem vistos pela face colorida e animada do mundo.

Enquanto se divertem, ou tentam se divertir, permanecem nos álbuns, paredes e estantes os papéis fotográficos em branco – casas vazias aguardando a volta dos perpétuos moradores.

Marcelo Sguassabia

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