Disputa política na crise: mais soluções e menos slogans

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Nos últimos meses uma significativa parte de nossas relações profissionais e pessoais está acontecendo através de telas de computadores e celulares, além de ficarmos mais tempo em frente à televisão. Em todas estas “janelas” para o mundo suportamos uma avalanche de profecias do pânico, do cataclisma sanitário ou econômico. Junto com esta visão do apocalipse temos a guerra sobre de que lado está tal veículo de comunicação ou amigo no Facebook. É conteúdo criticando a todos para todos os lados e mostrando (intencionalmente ou não) o pior dos cenários, quase sempre apontando erros e quase nunca como explorar cada iniciativa de combate à crise da melhor forma possível, em todas as esferas e dimensões do problemas.

É preciso entender que as polarizações políticas são resultado natural das disputas democráticas. Se por um lado o calor dos ânimos quase sempre ofusca o debate concreto de propostas, são estas manifestações de apoio com todo o teor passional que proporcionam a mobilização de atores necessária para a execução de um projeto de país (estado ou cidade). Carreatas, panelaços, hashtags, frases de efeito e provocações fazem parte do processo e não ameaçam a necessidade de distanciamento e higiene, até porque o conflito também é um instrumento agregador; mas não se pode parar nisso. Principalmente em um momento tão excepcional como o que vivemos, a didática sobre todas as iniciativas precisa ganhar o protagonismo, até porque não só tem gente morrendo mas também tem gente com fome e falindo, e sigla partidária nenhuma pode ser mais importante que estas três coisas.

Se as disputas são inevitáveis, que elas hoje tenham mais cara de “feira de ciências” que de gincana. Que as propostas de cada lado da disputa política sejam assumidas por grupos dispostos a explicar em todos os detalhes como cada medida funciona e como aderir a cada “salvação da pátria”. Seriam mecanismos de informação e solução de problemas à distância que diminuiriam demais exposições desnecessárias à ambientes suscetíveis ao vírus, e agilizariam o socorro para muitos, porque o tempo urge. 

O governo paulista, além das medidas ancoradas na solução dos problemas na área de saúde, também tem medidas que visam a sobrevivência de CNPJ’s e manutenção de empregos. Através do Banco do Empreendedor (Desenvolve São Paulo), oferece o Crédito Digital destinado ao capital de giro de micro e pequenas empresas. No Banco do Povo há a Linha Especial Covid-19 para empreendedores informais e produtores rurais. Por que estes programas não são difundidos e defendidos? Quem está se empenhando em esclarecer dúvidas sobre como funcionam e como aderir? A única militância saudável em tempo de pandemia é esta, porque as medidas de saúde não podem fugir dos poucos consensos que a classe científica pode nos dar a esta altura do campeonato.

Uma das principais medidas federais talvez seja o Programa Emergencial de Proteção de Manutenção do Emprego e da Renda, onde, entre outros pontos, o governo se compromete a pagar parte dos salários. Há também uma série de prorrogações de prazo de pagamentos de tributos e o Programa Nacional de Apoio às Microempresas e Empresas de Pequeno Porte (Pronampe), que oferece linhas de crédito. Pautas não faltam para os defensores do atual presidente se debruçarem no sentido de esmiuçar e ajudar os empresários locais a resolverem os problemas enormes que só se acumulam em nossa economia.

Apesar de a emoção no calor dos debates políticos ser uma coisa tão nossa dos países latinos, onde sempre busca-se seu caudilho favorito ou demagogo encantado, esta habilidade de mobilizar e encantar precisa urgentemente ser usada para resolver problemas claros. Não podemos nos prender em slogans e escândalos, nem em posturas intempestivas ou frases bonitas jurando responsabilidade. Dependemos de uma mobilização local muito pragmática e pautada em políticas públicas para salvar o sustento das pessoas, seja empregador ou empregado. Nada contra as medidas de isolamento/distanciamento e higiene indicadas por quem conhece o assunto, mas a medida do “ganha pão” não pode sair do horizonte.



Marcos Rehder Batista, sociólogo, doutorando em Desenvolvimento Econômico no Instituto de Economia/Unicamp, pesquisador do NEA/Unicamp e do LEICI/Unicamp, marcosrehder@gmail.com