Chumbo à moda da casa

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É pouco provável que você nunca tenha ouvido falar do Restaurante “Quilão do Janjão”, tradicional self-service por quilo e referência na zona leste da nossa cidade.

Do sistema de alimentação por peso, presente em tudo quanto é canto, também não há nada que se desconheça. Estabelece-se um preço a ser cobrado, determina-se o peso médio do prato e este é descontado do total marcado na balança, que é o chamado peso líquido – aquele que efetivamente será pago.

Embora a sistemática de cobrança pareça muito simples e transparente, Janjão andou tendo problemas. Pensou até em fechar as portas do seu ganha-pão, tamanho o aborrecimento que passou – e continua passando, a bem da verdade.

Tudo começou quando um cliente antigo, de nome Demerval, se meteu a questionar que o peso de um prato vazio em relação a outro poderia variar muito, prejudicando o consumidor. De uma suspeita pessoal a coisa tomou ares de revolta, para em seguida se transformar em denúncia e logo após em abaixo-assinado na porta do estabelecimento.

Alguém argumentou que seria fácil liquidar de vez a discussão, pesando-se o prato à vista do cliente antes que se enchesse de comida e confrontar depois ao peso bruto. Assim não haveria dúvida do que estaria de fato sendo cobrado. Não tardou, porém, para que surgisse um freguês dizendo que o tempo de fila dobraria com esse expediente, encurtando o horário de almoço da freguesia. O problema seria ainda mais crítico nos dias úteis, quando a corrida contra o relógio é mais acelerada.

A discussão se alongou por meses. Até que numa quarta, dia de feijoada com suco de graviola à vontade, Demerval reuniu boa parte da clientela mais assídua e apresentou uma solução para o impasse: substituir a balança de pratos por uma de gente. O sujeito se pesaria antes de servir-se e após o repasto, não dando assim margem a fraudes ou manipulações.

A ideia, aparentemente óbvia, foi aclamada com vivas e aprovada por esmagadora maioria. Mas a alegria durou pouco. Levada à apreciação do dono do restaurante, a proposta foi recusada com veemência e com argumentos de peso (com o perdão do trocadilho). O proprietário alegou que o cliente poderia muito bem se pesar calçando palmilhas de chumbo ou trazendo, sob a cueca ou a calcinha, pesos que aumentassem o resultado obtido na pesagem pré-almoço. Uma vez aboletado à mesa, ele retiraria os pesos e os guardaria na pasta, se homem, ou na bolsa, se mulher, para usar no dia seguinte. E pronto, estava feita a falcatrua. Um prato com 600 gramas de comida se reduziria a 200, com o golpe.

O grupo a princípio se mostrou indignado com a malícia e a desconfiança do comerciante, mas depois rendeu-se à força dos argumentos, que de fato faziam sentido. Além do mais, artefatos como jóias, colares, relógios, braceletes e pulseiras teriam que ser removidos antes da pesagem inicial, causando constrangimento às pessoas e transformando um corriqueiro almoço em algo semelhante a um procedimento alfandegário de voo internacional.

Enquanto a discussão não chega a um termo, o “Restaurante Kbeção” – que cobra preço único por cabeça, e não por quilo – faz a festa.

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Marcelo Pirajá Sguassábia
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